Blog da Associação Portuguesa de Cister (Apoc)

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Páscoa do Senhor


Vigília Pascal: Homilia de D. Bernardo Bonowitz


“A quem buscais? Sou Eu”

Segundo os evangelhos, Jesus apareceu pela primeira vez depois de sua ressurreição na madrugada do domingo da Páscoa. Para mim, este ano houve uma aparição adiantada. Permitam-me compartilhar.
Tudo começou no café de manhã da Quinta-Feira Santa. Enquanto tomava o café, lembrei-me do aviso do monge que foi meu confessor em meu mosteiro de origem, a Abadia São José de Spencer: “Nunca saia do mosteiro sem um trocado. Com certeza você se encontrará com um mendigo, e não vai querer ficar sem nada para lhe dar”. Corri atrás de Irmão Mateus, o tesoureiro de nossa comunidade, e pedi-lhe cinco reais em moedas.
Seguimos então para a Missa dos Santos Óleos, na Catedral. Terminada a missa, passando pela praça em frente à catedral rumo ao estacionamento, eu vi meu mendigo. Ou talvez eu me tenha visto primeiro. Ele tinha entre trinta e quarenta anos, penso eu, estava decentemente vestido, e olhou para mim. Não estendeu a mão para pedir uma esmola, nem se aproximou de mim, não disse nada, mas me deu um sorriso enorme, um sorriso que disse, “Sei que o senhor vai me dar alguma coisa”. Fiquei muito feliz por ter me lembrado do conselho do meu antigo confessor, fui até ele, dei-lhe um real, e me descobri envolvido num abraço caloroso e demorado. Talvez fosse o abraço mais casto que tenha recebido na minha vida. E enquanto meu amigo (notem vocês que é só um pulinho da palavra ‘mendigo’ para a palavra ‘amigo’) me abraçava, ondas passavam dele para mim. Ondas, isto é, águas, rios: rios de felicidade, de saúde, de paz, de sentir-me amado. No fim do abraço, não olhamos um para o outro, não apertamos a mão um do outro, não dissemos nada. Quase sempre quem pede uma ajuda, ao recebê-la diz: ‘Deus o abençoe’. Mas não dessa vez. É como se ele tivesse sumido, mas sei que não sumiu.
Ao longo de toda aquela Quinta-feira Santa, a experiência me voltava muitas vezes à mente e a mente racional tentava compreender o que tinha acontecido. Durante aquele dia, me veio uma luz, que não era a verdadeira luz, mas uma luz precursora, uma luz tipo João Batista. Aquela luz me disse: “Veja, Bernardo, como é ser mendigo. Pense na solidão que eles experimentam. Ninguém os toca, ninguém os abraça. No fundo, muito mais do que dinheiro, o que eles buscam é o contato humano”. Me lembrei de um monge de meu antigo mosteiro que dizia que é cientificamente comprovado que todo ser humano precisa de pelos menos dois bons abraços por dia para conservar seu equilíbrio pessoal. Perguntei-me quantos dias tinham passado desde a última vez que o meu amigo teve oportunidade de abraçar e ser abraçado, e decidi que muitas dias deviam ter transcorrido, e que naquele momento de proximidade, ele, como um camelo, estava enchendo seu tanque zerado e preparando-se para cruzar mais um deserto antes de ter acesso ao consolo de um outro abraço. E fiquei muito feliz por Jesus ter me escolhido para ser aquele que dava este sinal de amizade àquele pobre senhor solitário.  Até arquivei a intuição generalizada que o que o mendigo na rua busca é mais a troca do que o troco, mais o intercâmbio de afeto do que o câmbio da bolsa dos valores. “Pode ficar com o troco”, imaginava o meu amigo dizendo. “O que eu quero é a troca.”
Os hóspedes e visitantes de nosso mosteiro provavelmente não sabem, mas às Sextas-feiras Santas, além do tempo normal da lectio divina entre vigílias e laudes, temos duas horas a mais para ler e rezar, entre os ofícios de Laudes e Tércia. Para mim, é sempre um dos momentos dourados do ano. Neste período, eu estava meditando o trecho do evangelho de João no início da narrativa da Paixão: “A quem buscais” – “A Jesus o Nazareno” –  “Sou eu”; e de repente veio a verdadeira luz, a verdadeira compreensão da graça que vivi na praça. “Seu bobo”, disse a mim mesmo, cheio de alegria, “Não foi você que em nome de Jesus abraçou o pobre mendigo; foi Jesus que em nome de Si mesmo abraçou o pobre mendigo Bernardo”. E como uma reação alérgica anafilática que pode voltar durante as vinte-e-quatro horas seguintes com toda a força da reação original, fui inundado de novo com aquele fluxo de felicidade, paz e um imenso bem estar. Não fui eu que fiz nada; Eu fui o “feito”. Jesus me comunicou algo da infinita riqueza que brota do seu coração de Crucificado e Ressuscitado. Foi por isso que o mendigo-amigo-senhor me abraçou, coração a coração: ele estava realizando uma transfusão.
Não quero afirmar que o meu amigo era, ele mesmo, Jesus de Nazaré – isso só saberei na outra vida; mas quero enfatizar que ele realmente fez as vezes de Jesus de Nazaré. De uma maneira que ultrapassa a minha compreensão, ele fez por mim o que o Ressuscitado faz por nós: ele limpou uma ferida no meu coração. Sim, no dia do lava-pés ele lavou o coração do único na comunidade – o abade – que fica com os pés não lavados; e depois ungiu, e depois encheu com aquelas especiarias das quais eu falava – felicidade, paz, contentamento, amor. Depois fechou o buraco e enviou-me, exultando, no meu caminho.
Esta história que acabo de relatar não é importante, como acontecimento pessoal, para ninguém fora de mim. Mas por outro lado, ele é teologicamente importante para todos nós. Jesus, o homem das dores, tão pobre que ficou totalmente despido de suas vestes, mais pobre que a viúva na coletaria do templo, desprezado, desonrado, totalmente humilhado, morto e sepultado: ele, ele mesmo, vive, transborda de vida, transborda de vida imortal hoje na noite da sua ressurreição gloriosa, e quer abraçar a cada um de nós, não para encontrar consolo e compreensão por seus sofrimentos, mas para consolar a nós, confortar-nos, alegrar-nos e iniciar mais uma vez o nosso processo de transformação nele, por meio do qual ele e eu, ele e cada um de nós, nos tornamos uma só coisa com ele, cheios de sua vida divina e humana. Não é necessário experimentar o incidente que relatei; mas é indispensável – pois esta é a maior alegria dada ao ser humano – experimentar a Jesus vivo, Jesus Ressuscitado, que comunica a cada um de nós a sua vida infinita e imortal. Ele nos envolve em si mesmo e nos enriquece com tudo o que ele tem e ele é. É esta a Páscoa do Senhor. ⊕
D. Bernardo Bonowitz é abade do Mosteiro Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Natal



Bernardo de Claraval: 

5º Sermão para a Vigília de Natal

Antes de surgir a verdadeira luz, antes da vinda de Cristo, a noite envolvia o mundo por completo; assim também a noite reinava em cada um de nós antes da nossa conversão a Deus e nossa regeneração interior. Aquela era a mais profunda das noites, e as trevas mais espessas cobriam a face da terra, no tempo em que os nossos pais honravam falsos deuses.
E houve depois em nós outra noite tenebrosa, nesse período em que sem Deus vivíamos neste mundo, guiados apenas pelos nossos desejos egoístas e por atrações mundanas, fazendo coisas das quais hoje nos envergonhamos, por serem também obras das trevas.  
Mas, agora, saístes do vosso sono; fostes santificados e vos tornastes filhos da luz e filhos do dia. Já não sois das trevas nem da noite (1Ts 5,5).
«Amanhã vereis a majestade de Deus em vós.» Hoje, por nós, o Filho fez-se justiça vinda de Deus; amanhã, se manifestará como nossa vida , para que nos configuremos a Ele na glória. Hoje nasceu-nos um Menino, para nos resgatar da vanglória do mundo e para que, ao converter-nos a Ele, sejamos humildes como crianças (Mt 18,3). Amanhã Ele se mostrará em sua grandeza para que sejamos, também nós, glorificados, quando a cada um Deus conceder a sua glória: «Seremos semelhantes a Ele, porque o veremos tal como Ele é» (1Jo 3,2). Hoje, com efeito, não o vemos em si mesmo, mas como num espelho (1Cor 13,12); mas amanhã o veremos em nós, quando Ele se manifestar tal como é em si mesmo, e nos tomar para nos elevar até si. 

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Todos os Santos


Todos os Santos que militaram sob a Regra de São Bento


No dia 13 de novembro, quando a família beneditina e cisterciense celebra a festa de Todos os Santos que Militaram sob a Regra de São Bento, veneramos não apenas os grandes — São Bento, São Bernardo, Santa Escolástica — mas, e talvez ainda mais, a multidão de monges e monjas anônimos que empenharam toda a sua vida em buscar verdadeiramente a Deus, solícitos para com o Ofício Divino, a obediência e os opróbrios (RB 58, 7). Seguindo a Regra de São Bento, reconhecida até hoje por sua sabedoria, chegaram à santidade, que é a plenitude da vida humana.

Deus chama a cada um para ser santo. “Sede santos porque eu sou santo” (1Pd 1, 16 ; Lv 11, 44). E não apenas chama, mas ao nos criar à sua Imagem coloca em nós o potencial, a capacidade, e até a necessidade da santidade. Leon Bloy diz: “O único fracasso na vida é não ser santo”. E ainda São Paulo: “Antes da criação do mundo, fomos escolhidos para sermos santos e irrepreensíveis diante de Cristo no amor” (Ef 1, 4). Por isso, a santidade é a vocação de cada pessoa. Isto deve nos animar a desejar responder plenamente a este chamado de Deus.
O grave problema é que hoje, com tanto barulho e distrações na sociedade, a voz de Deus é bastante abafada. Mas discernir a voz de Deus exige silêncio interior, no qual nos confrontamos com nós mesmos – para que possamos ouvir a voz de Deus que nos convida: “Vem para o Pai”.
Ninguém está excluído deste chamado. Mesmo as almas mais escravizadas pelo pecado podem escutar a Deus e se converter, e realizar seu potencial para a santidade. Pois “o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”. O próprio Jesus “canonizou” o primeiro santo, Dimas, o ladrão arrependido, pouco antes de sua morte: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43).
Que os santos monges e monjas que militaram sob a Regra de São Bento nos inspirem e ajudem a responder com alegria e gratidão a este convite para realizar nosso mais alto potencial, que é a perfeita comunhão com Deus e com todos os seus santos no Reino dos Justos, alcançada por meio do fiel seguimento de Cristo.
CAMINHO CISTERCIENSE
https://cistercienses.wordpress.com

terça-feira, 24 de julho de 2018

LIvro de Santo cisterciense





Acaba de ser editado em Portugal o livro "Vida e Escritos" do monge cisterciense S. Rafael Arnaiz (1911-1938), o qual foi canonizado em 2009 por Bento XVI.

Trata-se da primeira edição em língua portuguesa de uma obra que é muito conhecida e apreciada em Espanha. De S. Rafael só existia em português o livrinho "Saber esperar", colectânea organizada por Fr. Damián de Oseira.

A edição deste livro é de umas irmãs franciscanas, que têm uma editorial em Fátima, às quais foi cedida a tradução feita por uma monja cisterciense portuguesa.

Aconselha-se o livro, que é uma valorizada obra de espiritualidade contemporânea, e pede-se a divulgação desta bela e cuidada edição.

O contacto da editorial é o seguinte:


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Congresso de Alcobaça 2018




Foi um grande sucesso o congresso internacional organizado pela Associação Portuguesa de Cister, em colaboração com a Associação dos Amigos do Mosteiro de Alcobaça.
Durante três dias, uma centena de participantes de vários países compartilharam o seu interesse pelo mundo cisterciense. Foram apresentadas cerca de sete dezenas de comunicações de excelente qualidade e assistiu-se a interessantes debates. Foi também muito agradável a parte social do evento.

Acreditamos que, de este congresso, sairá mais uma importante obra (actas) com excelentes contribuições sobre os vários domínios dos estudos cistercienses (História, Arte, Espiritualidade, etc.).

sexta-feira, 23 de março de 2018

Fundação de Cister há 920 anos



Um artigo sobre a festa do Trânsito de São Bento, 21 de março (calendário monástico).



Esta é uma celebração de dupla importância para os Cistercienses, pois é também o aniversário da fundação do mosteiro de Cister, há 920 anos atrás (1098).

Os fundadores de Cister


Os fundadores de Cister, no blog SCHOLA CHRISTI dos nossos amigos monges do Mosteiro trapista de Nossa Senhora do Novo Mundo (Brasil).


https://cistercienses.wordpress.com/2018/01/26/os-fundadores-de-cister-i-s-roberto-de-molesmes/

domingo, 10 de dezembro de 2017

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Congresso sobre CISTER em 2018


Anuncia-se a realização, em Alcobaça, nos dias 6 a 8 de Julho de 2018, do II Congresso Internacional "Mosteiros Cistercienses", em cuja organização estará envolvida a APOC.


Informações em:

www.cister-alcobaca2018.com

Escultura medieval

Congresso ALMAS DE PEDRA

sobre Escultura tumular medieval


quinta-feira, 4 de maio de 2017

Colóquio em S. Cristóvão de Lafões

Nos próximos dias 5 e 6 de Maio realiza-se o XIII Encontro Cultural de S. Cristóvão de Lafões, mosteiro cisterciense restaurado pelo Doutor Walter Osswald e sua Família, que há anos organizam esta notável iniciativa cultural centrada na ordem cisterciense.
O tema do colóquio deste ano é "Devoções e sensibilidades marianas: da ´memória de Cister ao Portugal de hoje".

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Doces conventuais cistercienses


As nossas amigas irmãs cistercienses da comunidade do Rio Caldo (S. Bento da Porta Aberta) foram distinguidas na 18ª Mostra Internacional Doces e Licores Conventuais, realizada na passada semana no mosteiro de Alcobaça, com o 1º Prémio do Concurso para Compostas Conventuais.
O prémio foi atribuído à extraordinária compota de ameixa com chocolate preto.
Parabéns !!!

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

TEMPLÁRIOS em Alcobaça


PROGRAMA

de manhã (10.30H):

 1) José Albuquerque Carreiras, Instituto Politécnico de Tomar
    Jerusalém no tempo do templários

2) Carlos de Ayala Martinez, Universidade Autónoma de Madrid
    El nacimiento de un fraude historiográfico: a propósito del “misterio” sobre la orden del Temple

 de tarde (15H):
3) Giulia Rossi Vairo, Instituto de Estudos Medievais (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa)
A extinção da Ordem do Templo e o advento da Ordem de Cristo à luz das fontes arquivísticas

 4) Nuno Villamariz Oliveira, Instituto de Estudos Medievais e Instituto de História da Arte (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa)
Novas problemáticas em torno da arquitectura e espiritualidade templárias


quarta-feira, 25 de maio de 2016

Homenagem ao Padre Damián

Na próxima 6ª feira, dia 27, a partir das 10.30H, haverá uma sessão de homenagem ao nosso grande amigo Padre Damián de Oseira no mosteiro de Montederramo, na Galiza.
O Padre Damian cumpriria este ano o seu centenário.


A homenagem é organizada pela ACIGAL - Associação dos Mosteiros Cistercienses da Galiza, e está integrada numa sessão de apresentação desta nova associação.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Alcobaça - novo LIVRO

Os nossos amigos Rui Rasquilho e António Maduro apresentam um novo livro sobre o mosteiro e os coutos de Alcobaça no próximo dia 7.


quinta-feira, 17 de março de 2016

Conferências em Alcobaça

No próximo dia 19 de Março, pelas 15 h, na Sala do Capitulo do Mosteiro de Alcobaça, realiza-se mais uma sessão do Ciclo de Conferências sobre Estudos Monásticos Alcobacenses, dedicada à “Obra de Iria Gonçalves e os Estudos Medievais Alcobacenses”, com a participação dos Professores Doutores Iria Gonçalves, Pedro Barbosa e Hermenegildo Fernandes.



sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Colóquio ALCOBAÇA - CLARAVAL

No próximo dia 14 de Novembro realiza-se no mosteiro de Alcobaça um colóquio comemorativo dos 900 anos da fundação da abadia de Claraval.
A abadia de Claraval, da qual foi primeiro abade São Bernardo, foi uma das quatro filhas de Cister, isto é, um dos quatro mosteiros fundados a partir dos mosteiro primordial de Citeaux (Cister), origem da Ordem Cisterciense.
A abadia de Alcobaça foi, por sua vez, uma fundação da abadia de Claraval (carta de fundação de 1153).


Mosteiro de Seiça - Novo livro

No próximo dia 7 de Novembro será apresentado um novo livro sobre o mosteiro cisterciense de Santa Maria de Seiça. Trata-se da tese de mestrado do Dr. António Ferreira Cabete, apresentada e defendida recentemente na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
O evento terá lugar pelas 18 horas no edifício da Biblioteca e do Museu Municipal da Figueira da Foz.
A apresentação do livro estará cargo da Prof. Doutora Maria Alegria Marques.